*Baseado nas aulas "Why Do We Get Irritated with Others" e "You Don't Need to Suffer to Grow", com Jonas Masetti*
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"Não existe a possibilidade de eu me irritar com alguma coisa que eu não faço."
Quando ouvi essa frase do Jonas, minha primeira reação foi: "Não, isso não pode ser verdade." Mas quanto mais pensei, mais vi que é exatamente assim que funciona.
O espelho da irritação
Quando alguém mente pra mim e eu fico furioso, o que está acontecendo de verdade? Jonas explica: só uma pessoa que mente fica irritada com mentira. Porque se eu aceitar que o outro mente, tenho que aceitar que eu também minto. E o ego não quer ver isso.
A gente se irrita com a gente mesmo — através do outro.
É por isso que a irritação é tão desproporcional em certas situações. Não é pela ação do outro. É pelo que a ação do outro revela sobre mim. Se o outro me engana, é porque eu também estava num jogo de engano — caso contrário, a conexão nem teria se formado. Pessoas que não são "acharcáveis" passam longe de usurpadores. Só se conecta quem tem a mesma fantasia.
Isso é difícil de engolir. Mas quando a ficha cai, muda tudo.
A condenação perpetua o problema
Jonas é enfático: condenar o outro destrói tudo. Porque a condenação perpetua o problema dentro de mim. Ela me mantém preso no papel de vítima, que é confortável, mas não me leva a lugar nenhum.
O caminho contrário é surpreendente. No início, tenho raiva absoluta da pessoa que me enganou. No final do processo, estou agradecendo. Não porque o que ela fez foi bom — foi ruim. Mas porque através dela eu consegui ver o papel ridículo que eu mesmo fazia. Através do outro, vi dentro de mim o que precisava ser trabalhado.
A pessoa não se torna especial por isso. Mas a gratidão aparece porque agora eu estou livre de algo que existia em mim — e que me fez me conectar com aquela situação.
Sofrimento não é pré-requisito
E aqui entra um ponto que complementa tudo: a ideia de que eu preciso sofrer pra crescer é uma das maiores armadilhas espirituais que existem.
Jonas é direto: quando acontece algo ruim, a pessoa espiritualizada diz "Deus está querendo me ensinar". Isso é compensação mental. A lei cármica — que na essência é simplesmente causa e efeito — não existe pra você dizer que o sofrimento é bom. Existe pra você entender que se tem um porquê, vai atrás dele pra não acontecer de novo.
Uma criança na escola aprende mais com estímulo e amor do que com pancada. Você não precisa de três casamentos fracassados pra entender que o propósito da vida não é acumular bens. Pode olhar ao redor, ver os problemas que as pessoas carregam, e aprender antes de precisar passar pelo mesmo.
A esperança — aquele "ano que vem será melhor" — é outro obstáculo. O marido nunca muda, o trabalho nunca melhora, a promoção nunca vem. E a pessoa vive na imaginação em vez de agir.
Perdoar é conhecer
A conclusão mais bonita que encontrei nessas aulas é sobre o perdão. Perdoar não é chegar pro outro e dizer "tudo bem, eu te perdoo" — porque isso não apaga a dor nem a culpa. Perdoar é se conectar com a pessoa por detrás da ação. Conhecer intimamente quem te machucou.
Porque quando você conhece a mãe que te abandonou — de verdade conhece —, talvez descubra que ela era tão perdida, tão incapaz naquele momento, que o abandono foi o melhor que ela podia fazer. E que você foi criado por alguém que te deu amor e carinho.
Nesse nível de conhecimento, nem o perdão é mais necessário. Só existe uma pessoa limitada olhando pra outra pessoa limitada dentro desse mundo.
A mesma situação dolorosa pode me levar pra dois caminhos: a raiva que gera mais sofrimento, ou o amor pela pessoa por detrás da ação — que me conecta e me expande.
A escolha é minha. E ela se renova a cada instante.
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*Da próxima vez que se irritar com alguém, pergunte: o que isso diz sobre mim?*
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