Om e Brahman. Não e metafora, não e exagero, não e licenca poetica. A Māṇḍūkya Upaniṣad abre com essa declaracao direta: oṃkāra eva idaṃ sarvam — "Om e tudo isso que existe."

Essa e a menor das Upaniṣads principais — apenas 12 mantras. Mas o que ela faz nesses 12 mantras e extraordinario: desmonta toda a experiência humana, mostra que você ja e livre, e usa Om como o veiculo para essa revelação.
Por que Om?
A maioria das pessoas conhece Om como um som que se canta no inicio de praticas de yoga ou meditação. Algumas sabem que e considerado "sagrado". Poucas entendem por que.
Om não e um som arbitrario escolhido por tradição. E o som que, segundo os Vedas, contem todos os outros sons. Quando você abre a boca e produz som sem articulacao, comeca com "A" (garganta aberta) e termina com "M" (boca fechada). "U" e a transicao entre os dois. Todo som possivel cabe entre A e M.
Isso faz de Om o simbolo sonoro da totalidade. E por isso que a Māṇḍūkya o usa como meio de conhecimento.
A-U-M: Os Tres Estados de Consciencia
A Māṇḍūkya mapeia cada letra de Om a um estado de experiência:
A — Vigilia (Vaiśvānara)
O estado acordado. Você percebe o mundo externo através dos sentidos. Ha um "eu" que experiência objetos la fora. E o estado mais familiar, e o que a maioria das pessoas considera "a realidade".
U — Sonho (Taijasa)
O estado de sonho. A mente cria um mundo inteiro — com objetos, pessoas, emocoes — sem nenhum input externo. O "eu" do sonho experiência esse mundo como completamente real. So ao acordar você percebe que era projeção mental.
M — Sono Profundo (Prājña)
O estado sem sonhos. Não ha objetos, não ha mundo, não ha divisao sujeito-objeto. Ha apenas consciencia não-dual e uma especie de bem-estar difuso. Você não sabe de nada — mas você esta la. A prova? Você acorda e diz "dormi bem" ou "não dormi bem".
O Silêncio Após Om: Turīya
Aqui esta o ponto mais profundo. Alem das tres letras, ha o silêncio que segue o som de Om. Esse silêncio e chamado turīya — literalmente, "o quarto".

Turīya não e um quarto estado que você experiência alem dos outros tres. E a consciencia que esta presente em todos os tres e que não depende de nenhum deles. E como a tela do cinema — os filmes mudam (vigilia, sonho, sono profundo), mas a tela permanece.
Você não precisa "atingir" turīya. Você ja e turīya. A confusão (avidyā) e se identificar com o conteudo dos estados em vez de reconhecer a consciencia que os testemunha.
Om Como Meio de Conhecimento (Pramāṇa)
Esse e um ponto que muitas pessoas perdem. Om não e um mantra para "elevar a vibração" ou "abrir chakras". Na Māṇḍūkya, Om funciona como pramāṇa — um meio de conhecimento valido.
Quando você entende que: - A = vigilia = o mundo que você experiência acordado - U = sonho = o mundo que a mente projeta - M = sono profundo = consciencia sem objetos - Silêncio = turīya = você, a consciencia que permeia tudo
...você esta usando Om para conhecer a si mesmo. Não e fe. Não e experiência mistica. E investigação metodica da natureza da realidade usando um simbolo que contem a totalidade.
Esse e o metodo de Vedānta: usar palavras (e neste caso, um som) como instrumentos que apontam para o que você ja e.
Om: O Mantra do Sannyāsī
Tradicionalmente, Om e o mantra do renunciante (sannyāsī). Quando uma pessoa toma sannyāsa — a ordem de renunciacao formal — o mantra que recebe e Om.
Por que? Porque Om representa a totalidade. O sannyāsī e aquele que reconheceu (ou esta no caminho de reconhecer) que não ha nada fora de si mesmo para buscar. Se Om e tudo, e se você e Om, o que resta a conquistar?
O sannyāsī não renuncia ao mundo porque o mundo e ruim. Renuncia a busca — a busca por completude em objetos, situacoes, relacionamentos. E Om, como simbolo da totalidade, e o lembrete constante dessa verdade.
Isso não significa que Om e exclusivo de sannyāsīs. Qualquer pessoa pode e deve cantar Om. Mas entender que Om e o mantra da renunciacao ajuda a entender a profundidade do que esse som representa.
A Māṇḍūkya na Pratica
Como usar esse conhecimento?
- Ao cantar Om, faca-o com entendimento. Quando pronuncia A, contemple o estado de vigilia e tudo que você experiência acordado. Com U, contemple o mundo dos sonhos e o poder criativo da mente. Com M, contemple o sono profundo e a consciencia sem objetos. No silêncio, reconheca a si mesmo — a consciencia que esta presente nos tres estados.
2. Na [meditação](/blog/meditacao-vedanta-diferenca), use Om como objeto de contemplacao. Não como repetição mecanica, mas como investigação: quem sou eu que percebo vigilia, sonho e sono profundo? Quem sou eu que permaneco enquanto os estados vem e vao?
3. No estudo, a Māṇḍūkya com a Kārikā de Gauḍapāda (um comentario em verso) e um dos textos mais importantes de Vedānta. Se você esta em um gurukulam ou estudando com um professor qualificado, esse texto sera estudado em algum momento.
Resumo
A Māṇḍūkya Upaniṣad não ensina a cantar Om. Ensina a entender Om. E ao entender Om, você entende a si mesmo — porque Om e você, e você e Brahman.
Não e misticismo. E o metodo mais direto que a tradição vedica oferece para o autoconhecimento.
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